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Múltis vão moer pelo menos 20% da safra de cana

Quando 2009 começou, a economia americana estava mergulhada na crise, as exportações brasileiras do agronegócio estavam em queda, algumas indústrias pediam recuperação judicial e o segmento sucroalcooleiro se via alavancado, após o boom de investimentos em anos anteriores. Os preços do açúcar e do álcool estavam baixos, o crédito, escasso, e os prazos dos credores pareciam correr mais rapidamente. As previsões catastrofistas se multiplicaram, mas o ano termina bem melhor do que começou.

"No início de 2009 a crise era tremenda e o cenário que se via à frente era desolador. Mas, agora, no fim do ano, o problema está menor. Tivemos pouquíssimos casos de recuperação judicial", avalia Marcos Jank, presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Ainda assim, é inegável que a crise, mesmo que mais amena do que se previa, serviu para manter intenso o processo de consolidação do segmento, que ganhou força nos últimos anos.

Os firmes fundamentos de longo prazo, tanto para açúcar como para biocombustíveis e bioeletricidade, não deixaram alguns grandes grupos sucumbir, apesar do elevado endividamento. Muito dinheiro estrangeiro entrou no capital das usinas com dificuldades financeiras em troca de participação e também do controle. Uma vez concluídas as consolidações iniciadas em 2009, a Unica estima que os estrangeiros responderão por 20% da moagem de cana no Centro-Sul em 2010, 8 pontos percentuais a mais que no começo de 2009.

Entre as maiores operações do ano, estão a incorporação da Santelisa Vale pela francesa Louis Dreyfus e da Moema Participações pela americana Bunge. Ambas as múltis assumem o controle dos grupos de usinas que adquiriram.

A Dreyfus criou uma nova empresa, a LDC-SEV, da qual detém 60%, que nasce com 13 usinas e capacidade de moer 40 milhões de toneladas de cana, atrás somente da Cosan, que deve fechar a safra atual com 56 milhões de toneladas.

A Bunge comprou 100% da Moema Participações (Moema Par), holding que controla uma usina produtora de açúcar em Orindiúva (SP) e tem participação em outras cinco. A capacidade anual de esmagamento de cana das seis usinas é de 15,4 milhões de toneladas, das quais a múlti deterá 60% e já negocia com os outros acionistas minoritários para abocanhar os outros 40% (ver ao lado). A transação ocorrerá por troca de ações. Os acionistas da Moema Par - entre os principais estão o empresário Maurílio Biagi Filho e integrantes da família Junqueira Franco - receberão 7,3 milhões de papéis da Bunge. Incluindo a assunção de US$ 480 milhões em dívidas, a operação chega a US$ 896 milhões.

Outro negócio cuja conclusão está em compasso de espera é a união da ETH Bioenergia, do grupo Odebrecht, com a Companhia Brasileira de Energia Renovável (Brenco). Prevista para ser concluída neste ano, a operação foi adiada para 2010, segundo a assessoria da ETH. Na semana passada, Luiz Pereira, diretor de relações institucionais e de sustentabilidade da ETH, disse ao Valor que havia algumas contingências técnicas para serem definidas no acordo.

Especialistas creem que, com esses movimentos, o segmento sucroalcooleiro vai iniciar 2010 com uma gestão melhor, ao mesmo tempo em que terá um maior volume de débitos renegociados e uma avaliação de risco mais positiva. Carlos Eduardo de Siqueira Cavalcanti, diretor de biocombustíveis do BNDES avalia que, ainda que o processo de reorganização financeira das usinas demande mais tempo, o segmento absorverá mais recursos em 2010. O banco espera desembolsar a projetos sucroalcooleiros um montante próximo ao deste ano (R$ 6 bilhões). "Não podemos esquecer que o banco olha um setor em seu fundamento de longo prazo e, no caso do açúcar, do etanol e da bioenergia, essas perspectivas são positivas. Temos, por exemplo, uma frota nacional de 25% de veículos flex. O espaço para crescer é extenso", disse Cavalcanti.

Assim, nesse período em que os agentes financeiros comerciais retraíram crédito em sinal de aversão ao risco, o BNDES compensou parte da deficiência. Nos 12 meses seguintes a setembro de 2008, marco da quebra do Lehman Brothers, o banco elevou seus financiamentos diretos ao segmento para 62% do volume total, ou seja, sem a intermediação e assunção de risco de agentes financeiros. "Historicamente, nossa participação direta fica no patamar de 45% do desembolso total. Em 2010, esses níveis devem voltar ao normal, com a retomada da oferta de crédito", afirmou o executivo.

Já a volta dos projetos de novas usinas, os chamados "greenfields", é promessa somente para o fim de 2010 ou início de 2011. O carro-chefe do próximo ano deve ser as trocas de equipamentos de usinas e de melhorias no desempenho operacional dos ativos, sobretudo por parte dos grupos que incorporaram novas usinas. "Uma vez que se comprou o ativo, é natural que se busque agora ter melhor resultado. Os grandes players vão querer ampliar a eficiência e produtividade daquele ativo que foi agregado", antecipa Sérgio Leme, presidente da Dedini, líder em equipamentos para o segmento.

Segundo Jank, da Unica, o interesse por compra de usinas deve continuar em 2010 e as limitações vão existir por conta da falta de atratividade dos próprios ativos. "Há um grupo de usinas de menor escala e logística ruim que estão em situação mais complicada."

A prevista maior oferta de crédito tende a aliviar o caixa das usinas, que, assim, não precisarão liquidar produto a qualquer valor para fazer caixa, como neste ciclo. "A safra está terminando menor e com estoques mais justos. Claro que em início de safra naturalmente há uma tendência de queda, mas esperamos um ano mais equilibrado", diz Luiz Pereira, da ETH.

Para se ter uma ideia da volatilidade de 2009, em fevereiro o preço do litro do álcool hidratado estava em R$ 0,80; para fazer caixa, as usinas elevaram a oferta e derrubaram o preço para R$ 0,50 em março, patamar que perdurou por quase três meses. A recuperação só veio em setembro, quando a chuva atrapalhou a moagem de cana e tornou o produto realmente escasso. "Essa necessidade de fazer caixa continuará existindo, mas vai diminuir. Por isso, o etanol terá remuneração mais equilibrada. O lucro operacional será melhor", afirma Arnaldo Luiz Correa, da Archer Consulting.

Os custos, porém, continuarão altos, fator que ainda vai imprimir o rótulo de ano "difícil" para o setor, na avaliação de Plínio Nastari, da Datagro. "Teremos uma safra grande, com custos elevados e muitos compromissos de pagamento". A estimativa da Datagro é que no próximo ciclo (que começa em março), a moagem de cana no Centro-Sul fique entre 565 milhões e 590 milhões de toneladas, até 10% mais que na temporada passada - um aumento menor que o da safra 2008/09 (16%), ainda com o clima de euforia com o etanol. A produção de açúcar deverá ficar entre 32 milhões e 32,6 milhões de toneladas, alta de 10%, e a de etanol entre 27,1 bilhões e 28,9 bilhões de litros, 12% de incremento.(Fabiana Batista)

Fonte: Valor Econômico\Canaoeste
(04/01/2010)
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