Notícias

  • Twitter
  • FaceBook

Ameaça ao etanol

Disposta a pegar carona na histeria ecológica mundial, parte da indústria automobilística que sobreviveu à crise econômica aposta nos carros eficientes e limpos como solução do presente. Nas ruas de Tóquio, no Japão, Nova York e Los Angeles, nos Estados Unidos, automóveis elétricos híbridos já desfilam lado a lado com veículos convencionais. Há quem diga que em menos de 10 anos Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo também estejam na lista.

   Hoje, pelo menos 2 milhões de carros elétricos rodam por aí. As montadoras que primeiro lançaram o conceito tiraram a poeira das prateleiras e preparam uma enxurrada de lançamentos para 2010 — a meta é criar escala, produzir mais e a preços menores. “Quero que a tecnologia que irá impulsionar os carros do futuro seja desenvolvida aqui ! na América”, disse em agosto o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ao anunciar US$ 2,4 bilhões em subsídios oficiais voltados à pesquisa de baterias de carros híbridos e elétricos. O apetite dos americanos não é menor do que o da Índia, da China e da Coreia, países onde a corrida elétrica está a todo vapor. Para esses gigantes, invadir mercados emergentes é questão de tempo.

   O Brasil, que elegeu o etanol como estrela da diversificação de sua matriz energética, vê o avanço dos híbridos com desconfiança. Um embate de conceitos e de tecnologia determinante para a economia e que fará, obrigatoriamente, parte da agenda estratégica do governo que assumirá o país em 2011. O setor sucroalcooleiro e automobilístico nacionais, além do governo, se perguntam: até que ponto a “onda verde” de segunda geração não vai atrapalhar os planos de ampliar as exportações de álcool combustível? E o sonho de transferir tecnologia flex! para quem, até pouco tempo, se encantava com os canaviais: como será afetado? Sem investimento, quais as chances de o país entrar de forma competitiva na disputa por esse mercado?

Temor

   São perguntas que para os especialistas em energia têm resposta simples. “O carro híbrido é uma realidade, não uma ameaça ao nosso etanol”, minimiza Jayme Buarque de Hollanda, diretor-geral do Instituto Nacional de Eficiência Energética (Inee). Testemunha privilegiada dos avanços nessa área, Hollanda afirma que existe “muita ignorância” travando parcerias que poderiam colocar o Brasil na vanguarda. “A indústria tem medo, mas não deveria ter. O que estamos vendo é uma novidade e uma novidade forte. Não tem a ver com competição com o álcool nem nada disso”, completa.

   Há quem duvide. Em 2010, o mundo será bombardeado por pelo menos 15 modelos híbridos que combinam eletricidade com gasolina ou diesel, entre eles o Chevy Volt, que começa a ser produzido neste ano nos Estados Unidos! . Motores baseados em energia elétrica e etanol engatinham, não têm apelo comercial. Como tempo é dinheiro, aos olhos das montadoras, amadurecer o mercado híbrido movido a derivados de petróleo virou questão de ordem. O álcool combustível obtido a partir de cana-de-açúcar, beterraba, milho ou outro alimento não é visto como alternativa.

   Mais do que abrir as portas para o etanol, as grandes marcas globais que investiram bilhões em projetos elétricos nos últimos dois anos estão preocupadas mesmo em eliminar o quanto antes as desvantagens competitivas (1)que separam os modelos elétricos dos tradicionais. Baixar custos, reduzir o tamanho das baterias acopladas ao chassi, garantir maior autonomia e potência são algumas das obsessões. O preço é outra.

   A esperança dos usineiros é que até lá os ventos soprem a favor do etanol. Até porque, para as próximas três décadas, as projeções são otimistas. A União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), que representa 60% da produ! ção nacional de etanol, adota discurso pacificador e foge da briga com o carro elétrico. Na visão da entidade, a entrada de novos agentes torna o mercado competitivo e bom para o consumidor, não impõe restrições ou impossibilita a expansão do setor.

   Solução pronta

   Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e um entusiasta da causa que move o etanol brasileiro, diz que o álcool combustível é a “solução pronta”, ao contrário da tecnologia de motores elétricos. Segundo ele, a procura por veículos continua muito forte em todo o mundo, o que impulsionará cada vez mais o avanço de carros flex nos próximos anos. “O álcool será ainda bastante demandado”, adverte. Segundo ele, há mais coincidências do que conflitos na relação entre as duas tecnologias. “Mais do que compatíveis, o etanol e o motor elétrico são complementares”, reforça.

   Em viagens recentes que fez a países onde o etanol ainda é visto como saída para crises econômicas e ambientais, Rodrigues afirma q! ue o interesse pela fonte de energia desenvolvida no Brasil continua vivo. Apesar de reconhecer o avanço das novas frentes energéticas, o ex-ministro acredita que há espaço para todos crescerem. “Espero que, como toda coisa boa, o carro elétrico ganhe mercado com investimento e muita pesquisa. Isso não é uma ameaça ao etanol”, justifica.

   Atualmente, carros híbridos médios custam três vezes mais do que um “puro” a gasolina — a carga tributária brasileira se encarrega de inflacionar o produto ainda mais. Se tudo caminhar bem, em cinco ou oito anos, essa diferença cairá — inclusive no Brasil. Em 2025, apostam os analistas, os elétricos poderão até ser mais baratos do que os convencionais, e nações apaixonadas por carros terão entre 30% e 40% da frota total composta por veículos híbridos.(...)

   Ocupação silenciosa

   Pelas ruas da Grande São Paulo, 38 ônibus abastecidos com diesel, mas movidos a energia elétrica ganham as avenidas silenciosamente. Montados pela Eletra, uma empresa nacional cuja fábrica fica em São Bernardo do Campo (SP), os modelos são utilizados no transporte urbano de passageiros. “Existe uma resistência muito forte quando se tenta mudar esse mercado (motores alimentados só por petróleo), mas, apesar de tudo, o carro elétrico está ganhando mercado”, diz Ieda Maria Oliveira, gerente comercial da Eletra.

   Ainda que as barreiras tributárias sejam quase intransponíveis — o carro elétrico não conta com nenhum tipo de benefício fiscal ou isenção de impostos —, as empresas nacionais e multinacionais voltadas a esse segmento enxergam boas oportunidades de negócios no Brasil. Para Ieda, o meio ambiente é um aliado importante. “Essa questão não tem mais volta. As pessoas já se convenceram que precisam poluir menos”, completa.

   Se a cultura ecologicamente correta ajudará ou não o etanol, isso é outra história. Por via das dúvidas, os empresários da cana procuram estimular e até patrocinar projetos que possam garantir a sobrevivência do negócio. Nas universidades e em algumas regiões industriais brasileiras de grande porte — onde se fabricam motores elétricos para linhas de montagem — a adaptabilidade do etanol ao sistema de geração móvel de energia elétrica já vem sendo testada. (LP)

Fonte: Correio Braziliense - DF\Jornalcana
(11/01/2010)
  • Twitter
  • FaceBook